O tempo passou rápido. As provas finais do segundo semestre da Faculdade
estavam chegando ao fim. Naquela oportunidade, eu tinha que receber um cheque em
dólares, que o meu pai comprava no banco de Masaya, na Nicarágua e depois
enviava para mim, mês a mês, por carta registrada. Era com este dinheiro que eu
pagava toda a minha manutenção e minhas contas.
Uma carta levava 12 dias em média e no mês anterior um funcionário dos
correios, tinha-me furtado o cheque do mês. As poucas reservas que sobraram
deram só para eu pagar o restaurante de Faculdade. Como não tinha dinheiro, tive
que sair da "república", onde morava e mudei-me para uma garagem, na rua dos
Otoni.
Esta vaga na moradia, quem arrumou
foi o Márcio, que lá morava. Márcio trabalhava na biblioteca da Faculdade e no
dia que eu percebi ter sido roubado nos correios, eu estava triste e ele me
perguntou o que eu tinha. Ai eu desabafei e contei do cheque, da demora em
chegar uma carta, com outro cheque, da falta de dinheiro e por isso me ofereceu
a vaga na garagem.
Ele era um amigo especial, muito
humano. Estando já quase livre das provas ele me disse, Guillermo, onde você vai
passar o Natal e o Ano Novo? Eu respondi, aqui em Belo Horizonte, porque não
tenho família e nem dinheiro. Ele então fez a proposta e o convite para ir na
cidade dele, Corinto, e passar as festas por lá. Senti a sinceridade no convite,
e aceitei, porque não tinha aonde ir mesmo.
Lembro que fomos juntos na
Rodoviária antiga de Belo Horizonte, do lado do rio Arruda, para embarcar. O
ônibus, era da São Geraldo, uma carroceria Ciferal. Partimos e a primeira parada
foi em Paraopebas, lá o Márcio desceu e foi no barzinho, comprou um guaraná para
mim, e um pão de queijo.
Eu não tinha descido porque não
tinha dinheiro para nada. Época da repressão e dos governos militares, nesta
parada, entraram vários militares, no ônibus e procuravam alguém. Depois de
pedir documentos para alguns passageiros, seguimos viagem.
Nesta época, a cidade de Curvelo,
tinha feito umas melhorias na praça central da cidade e a propaganda era que
esta praça seria a mais bonita do interior de Minas Gerais. De fato quando
passamos por ali, a praça iluminada parecia muito bonita. Seguindo a viagem, o
ônibus chegou ao destino, a cidade de Corinto.
Como a residência da família do
Márcio era perto, fomos caminhando e com a malas nos braços. Lá chegando fui
apresentado para toda a família que nos esperava, já com um belo jantar na mesa.
Devo destacar que pela proximidade com o Rio São Francisco e a cidade de
Pirapora, peixe foi o prato escolhido.
Entre uma garfada e outra, fui
conhecendo os membros daquela casa que me recebeu, com a hospitalidade, nunca
antes vista por mim. O pai, soube depois, tinha sido prefeito de Corinto. A mãe
era uma dona de casa doce na sua simplicidade. Balaio, apelido de um irmão dos
mais velhos, Olivia irmã mais velha, já casada com o Gilson. Depois vinham
Dioneia, que estava noiva do Carlos, gerente de um dos supermercados da pequena
Corinto.
Depois Maurinho, mais novo que o
Márcio, e Ciduca, apelido da irmã mais nova. Depois daquele maravilhoso jantar,
surubim ensopado, com direito a repeteco, saimos o Márcio e Eu, para dar umas
voltas, e conhecer o centro, daquela cidade, onde eu passei o meu primeiro Natal
e Ano Novo, no Brasil.
Lembro que depois da casa dele que
era de esquina, a cerca de 50 metros, seguindo pela rua principal, havia um bar
da moda, não lembro o nome, mas a rapaziado toda de Corinto estava lá. Eu como
forasteiro, claro chamava a atenção de todos, principalmente das mocinhas do
lugar.
Quando era apresentado para elas,
e iniciava um diálogo, evidentemente que o meu sotaque, soava como uma melodía,
nos ouvidos femininos. Tinha umas que puxavam conversa, só para me ouvir falar.
O meu repertório de palavras em português era muito limitado, só que eu já tinha
notado que o meu sotaque valia ouro.
Por volta das 23 horas, decidimos
voltar para casa, e eu notei, que a porta da frente, não estava fechada. Lá na
tranquilidade de Corinto, a porta era só encostada, sem fechar. Pensei comigo,
aqui não devem ter ladrões.
O quarto das meninas Dioneia e
Ciduca tinha sido requisitado para o Márcio e seu amigo, pois era o melhor da
humilde, mas bonita casa. Foi neste quarto, que conhecí chenille, o de lá era
cor de abóbora. Nos dias posteriores, o rotina era levantar na hora que
desejasse, tomar aquele café da manhã farto e depois ruar, conhecer todos os
amigos do Márcio, e evidentemente as amigas.
Lembro do Décio Alvarenga, seu
irmão Túlio, um que tinha apelido de Padre Zezê, e muitos outros. Os pontos de
encontro eram na praça de esportes, a piscina era lotada, depois saiamos direto
para chupar picolés, quase sempre de limão.
Invariavelmente, os rapazes,
paravam na sinuca, onde ficavam um bom tempo. A minha primeira impressão ao ver
aquela mesa de sinuca, era de jogar, mas como faze-lo, se na minha terra, só se
jogava carambola (sem caçapas), e o chamado de "pool", mais americanizado, 15
bolas numeradas e uma branca.
Como entender o valor das bolas
aqui, e a contagem, diferente? e quando o jogador arriscava, porque perdia? e se
acertasse, porque continuava? Túlio então explicou-me as regras e ai sim, eu
aprendi a jogar sinuca, foi Túlio quem me ensinou.
Atualmente, o que eu sei é que o meu amigo Márcio perdeu a vida em
Pirapora, afogou-se no Rio São Francisco. Balaio, Maurinho, Olivia, Décio e
Túlio ainda moram em Corinto. Dioneia e Carlos em Betim-MG. Ciduca e sua
família, em Belo Horizonte, mas o que ficou em mim, daquele Natal e Ano Novo,
foi a hospitalidade do povo mineiro do interior, da pequena cidade de Corinto,
que não mede esforços, para te receber bem.
A todos eles, agora, 40 anos
depois, vai o meu muito obrigado.